segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

As quatro barras catalunhas


Os normandos invadiram a França, no reinado de Carlos Magno. O Imperador enviou a seu sobrinho Vifredo o Zeloso, Conde de Barcelona, uma carta na qual pedia-lhe que o socorresse com os seus guerreiros.

O Conde marchou imediatamente com seu exército, que entrou na batalha, e foram vencidos os normandos, que se retiraram.

Durante a batalha, uma flecha acertou o peito de Vifredo. Foi retirado a uma tenda, onde o visitou o Imperador.

O tio quis recompensar seu sobrinho, dando-lhe riquezas e bens. Mas ele recusou toda recompensa, lamentando apenas que, apesar das muitas vitórias que havia obtido em diversas batalhas nas quais tomara parte, seu escudo de armas ainda era liso: campo dourado, sem insígnias que revelassem as suas muitas gestas.

O Imperador Carlos molhou então os quatro dedos de sua mão direita na ferida de Vifredo, e os passou de cima para baixo no escudo, marcando nele as quatro barras de sangue, que ainda hoje adornam o escudo de Catalunha, Valência e Aragão.


(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953)


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

As Ordens Militares, a Igreja e as Cruzadas

Templário (esquerda) e Hospitalário (direita)
Templário (esquerda) e Hospitalário (direita)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








A Santa Igreja, por inspiração do Espírito Santo, engendra através dos tempos os diversos institutos religiosos.

Age assim, a fim de atender às necessidades das almas em cada momento histórico.

É uma das manifestações da sua santidade e da pujança de sua vitalidade.

Na Idade Média havia união entre a Igreja e o Estado. A comunidade dos povos cristãos, fundada na mesma Fé, constituía a Cristandade.

I. é, a grande família de povos sob a autoridade espiritual do Papa e o primado temporal do imperador do Sacro Império Romano-Alemão.

Contra a integridade da Igreja e da Cristandade investiam continuamente os inimigos internos e externos.

Os inimigos internos eram os hereges, que, por meio de suas doutrinas espiritual e temporalmente revolucionárias, procuravam arrebatar regiões e até nações inteiras à jurisdição da Santa Sé e do Império.

Os inimigos externos eram de um lado os bárbaros do oriente europeu (saxões, eslavos, etc., muitos deles depois convertidos) e também do norte da Europa como os vikingos (também acabaram se convertindo).

Crack des Chevaliers, fortaleza cruzada, hoje na Síria
Crack des Chevaliers, fortaleza cruzada, hoje na Síria
De outro lado vinham os muçulmanos da Espanha, Ásia Menor e norte da África.

Estes atacavam com freqüência as fronteiras do mundo cristão, e infestavam os mares perseguindo os peregrinos que iam visitar os Lugares Santos.

Urgia defender contra essas violências a Fé e a civilização católica. Como empreender tal defesa? Para consegui-lo, a Igreja suscitou as Ordens Militares.

O espírito da Igreja fez nascer na Idade Média as Ordens Militares, que tanto fizeram para a conservação da Terra Santa.

Fez nascer aqueles cavaleiros orantes e monges armados, cujos mosteiros eram castelos. Que recebiam as expedições de peregrinos, as amparavam, curavam os feridos e doentes, e obedeciam com o mesmo fervor ao sino ou à trombeta, quando eram chamados para a batalha.

Eles eram os primeiros no ataque e os últimos na retirada. Homens cujas espadas infligiam tão graves feridas, e cujas orações e cânticos se elevavam entusiastas até o Céu!

O espírito das Cruzadas, a união do heroísmo com a devoção, do amor ao próximo com a varonilidade, da espada e da penitência, se mostra em suas cores mais brilhantes nas Ordens de Cavalaria.

TemplárioAs Cruzadas deram nascimento às Ordens Militares. Estas Ordens levaram a Cavalaria a uma nova perfeição, elevando-a até às alturas da vida monástica.

Formaram como que exércitos permanentes de cruzados, os guardiões da Cristandade.

Elas se tornaram a alma de todas as grandes empresas militares e resumiram em si tudo o que a Cavalaria produziu de heroísmo.

Aos três votos monásticos — obediência, pobreza e castidade — as Ordens Militares acrescentaram um quarto: o de consagrar-se inteiramente à guerra contra os infiéis.

Assim os cavaleiros abraçavam uma regra monástica, não para se retirarem para a solidão, mas para melhor cumprirem os ideais da Cavalaria.

Eram monges-guerreiros e formavam um exército permanente, pronto a entrar em combate onde quer que os inimigos ameaçassem a Religião cristã.


Bibliografia

Albert Ollivier, "Les Templiers", Editions du Seuil, Bourges, França, 1958.

C. López Castro, "La Batalha de Clavijo", in "Ejército", Madri, 1969.

Catolicismo - nºs 11 e 219.

"Dictionnaire de la Conversation et de la Lecture".

Eric Muraise, "Histoire Sincère des Ordres de l’Hôpital", editor Fernand Lanore, 1978, 254 págs.

Erwan Berget, "Corpos de Elite do Passado"

Eversley Belfield, "Defy and Endure", Crowell-Collier Press, New York , 1967, 96 págs.

Funck Brentano; "Féodalité et Chevalerie", Les Editions de Paris, 1946, 236 págs.

Georges Bordonove, "Les Templiers", Paris, Fayard, 1963 (nova edição: 1977)

Pierre Hélyot, "Histoire des ordres monastiques", t. VI, na Biblioteca Nacional de França - BNF, em linha.

"Histoire des Ordres de Chevalerie et des distinctives honorifiques en France"

"Historia de la Iglesia Catolica", BAC, Madri, vol. 2, 2009, 912 págs.

"Historia", Nº 139.

J. M. Garate C., "La Huella Militar em el Camino de Santiago", Publicaciones Españolas, Madri, 1971.

J.B. Weiss, "História Universal"

J.F. Michaud, "História das Cruzadas", link em PDF; em francês: Éditions de Saint-Clair, 1966, 312 págs.

John Charpentier, "L’Ordre des Templiers", edições Tallandier, 2015, 368 págs.

Jules Roy, in "Historia", nº 139

Léon Gautier, "La Chevalerie", Maison Quantin, Pais, s/d (fim século XIX); Sanard et Derangeon, 1895, 850 págs.

Luis F. de Rentana, "San Fernando III y su epoca", Editorial El Perpetuo Socorro, Madri, 1941, 483 págs.

M. Vidal Rodrigues, "La Tumba del Apóstol Santiago", Santiago, 1924.

Miguel R. Zapater, "Cister Militante Contra a Fúria Sarracena", 1662

Nicolas Gosselin, "Histoire des Ordres Monastiques, Réligieuses et Militaires" - 1715

Obras Completas de São Bernardo, BAC, Madri, vol. 2, pp. 853-862

Philippe du Puy de Clinchamps, "História Breve da Cavalaria", Editorial Verbo, Lisboa, 1965, 140 págs.

Profs. do King’s College de Londres, "A Cavalaria Medieval", The Hispanic American Historical Review Vol. 30, No. 1, Feb., Duke University Press, 1950.

Bernard Hours, "Histoire des Ordres Religieux", col. "Que sais-je?",PUF, Paris, 2012.

Rohrbacher, "Histoire Universelle de L’Église Catholique", Librairie Ecclésiastique de Briday, Lyon, 1872.



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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Nossa Senhora detém o sol para derrotar os mouros

Pôr do sol em Tentudía. Cruz evocativa
Ao iniciar a campanha de Sevilha, em 1247, o Rei S. Fernando III enviou mensagem ao Grão-mestre da Ordem de Santiago, D. Pelayo Correa, para que acertasse alguns assuntos próximo a Badajoz, e depois fosse a Sevilha. Assim ele o fez, conquistando com seus monges-cavaleiros várias cidades pelo caminho.

Ao passar por Figueira da Serra, foi atacado por uma numerosa hoste de muçulmanos, muito superior à que tinha consigo.

Vendo que a batalha se prolongava, e que começava a anoitecer, D. Pelayo rezou à Virgem, suplicando-lhe que mantivesse a luz do dia: "Señora, ten tu día".

Mosteiro de TentudíaO sol parou no céu durante o tempo suficiente para que os cavaleiros de Santiago pudessem vencer a batalha.

Desde então a serra se chamou Serra de Tentudía. Como memória e agradecimento, o Grão-mestre estabeleceu ali um mosteiro-fortaleza, que ainda hoje existe, e em cuja capela, junto ao altar-mor, está sua sepultura.

(Fonte: José Maria de Mena, "Entre la Cruz y la Espada - San Fernando" - RC Editores, Sevilha, 1990, pp. 64-65)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Honras dos cruzados

Roberto de Normandia, primogênito de Guilherme o Conquistador, catedral de Gloucester
Os cruzados que tinham combatido na Terra Santa, ou mesmo aqueles que apenas haviam pronunciado o voto de fazê-lo, eram enterrados com as pernas cruzadas, atitude em que podemos contemplá-los sobre os túmulos, nos claustros dos mosteiros.

São Luís IX, em sua imensa piedade, não se cansava de dizer que preferia o apelativo de “batalhador” ao de “devoto”.

Preguiça e avareza aparecem aos olhos do Cavaleiro como inimigos mortais. Por isso, não bastava conquistar um prêmio num torneio ou uma batalha vitoriosa; ao voltar para casa, ele deveria mostrar-se benevolente para com todos, amável, polido; dar esmolas aos pobres, distribuir suas velhas túnicas aos menestréis.

À valentia, generosidade e cortesia devia juntar-se a modéstia.

O cavaleiro ansiava o momento em que pudesse abandonar os torneios e seguir para além-mar, para a Terra Santa. Só assim ele poderia adquirir a reputação de “batalhador”.

(Fonte: Funck Brentano, « Féodalité et Chevalerie »)


segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Elogio dos Templários feito por São Bernardo de Claraval


Pediste-me uma, duas ou três vezes, se não me engano, Hugo caríssimo, que fizesse uma exortação para ti e teus cavaleiros. E como não me era permitido servir-me da lança contra as agressões dos inimigos, desejaste que, pelo menos, empregasse minha língua e meu gênio contra eles, assegurando-me que eu te faria um favor se animasse com minha pena aqueles que não posso animar pelo exercício das armas.

Voa por todo o mundo a fama do novo gênero de milícia que se estabeleceu no país em que o Filho de Deus encarnou-se e expulsou pela força de seu braço os ministros da infidelidade.

Este é um gênero de milícia não conhecido nos séculos passados, no qual se dão ao mesmo tempo dois combates com um valor invencível: contra a carne e o sangue e contra os espíritos de malícia espalhados pelos ares. Em verdade, acho que não é maravilhoso nem raro resistir generosamente a um inimigo corporal somente com as forças do corpo. Tampouco é coisa muito extraordinária, se bem que seja louvável, fazer guerra aos vícios ou aos demônios com a virtude do espírito, pois se vê todo o mundo cheio de monges que estão continuamente neste exercício. Mas quem não se pasmará por uma coisa tão admirável e tão pouco usada como é ver a um e outro homem poderosamente armado dessas duas espadas, e nobremente revestido do caráter militar?

Certamente esse soldado é intrépido e está garantido por todos os lados. Seu espírito se acha armado do elmo da fé, da mesma forma que seu corpo da couraça de ferro. Estando fortalecido por essas duas espécies de armas, não teme nem aos homens nem aos demônios. E digo mais: não teme a morte, posto que deseja morrer. Com efeito, o que pode fazer temer, seja a morte ou a vida, quem encontra sua vida em Jesus Cristo e sua recompensa na morte? É certo que ele combate com confiança e com ardor por Jesus Cristo, entretanto deseja mais morrer e estar com Jesus Cristo, porque este é seu fim supremo.

Eia, pois, valorosos cavaleiros, marchai com segurança, expulsai com uma coragem intrépida os inimigos da Cruz de Nosso Senhor, e estai certos de que nem a morte nem a vida poderão separar-vos da caridade de Deus, que está em Jesus Cristo. Pensai com freqüência, durante o perigo, nestas palavras do Apóstolo: "Vivamos ou morramos, somos de Deus".

Oh! Com quanta glória voltam do combate esses vencedores! Oh! Com quanta ventura morrem esses mártires na peleja! Regozija-te, campeão valoroso, de viver no Senhor, mas regozija-te ainda mais de morrer e ser unido ao Senhor.

Sem dúvida tua vida é frutuosa e tua vitória gloriosa, mas tua morte sagrada deve ser preferida com justa razão a uma e a outra. Pois se os que morrem no Senhor são bem-aventurados, quanto mais não o serão aqueles que morrem pelo Senhor?

Em verdade, de qualquer maneira que se morra, seja no leito, seja na guerra, a morte dos santos será sempre preciosa diante de Deus. Mas a que ocorre na guerra é tanto mais preciosa, tanto maior é a glória que a acompanha.

Oh! Que segurança, repito, há na vida que espera a morte sem temor nenhum! Oh! Deseja-a com ânsia e recebe-a com devoção!

Oh! Quão santa e segura é esta milícia, e quão livre e isenta está desse duplo perigo em que se acham ordinariamente as gentes de guerra, que não têm Jesus Cristo por fim de seus combates!

Porque tantas vezes como entras na peleja — tu, que não combates senão por um motivo temporal — deves ter temor de matar a teu inimigo quanto ao corpo, e a ti mesmo quanto à alma, ou talvez de ser morto por ele quanto ao corpo e quanto à alma juntamente.

Pois o perigo ou a vitória do cristão se deve considerar, não pelo sucesso do combate, mas pelo afeto do coração. Se a causa daquele que peleja é justa, seu êxito não pode ser mau, assim como o fim não pode ser bom se é defeituoso o motivo e torta sua intenção.

Se, com a vontade de matar a teu inimigo, tu ficas estendido, morres fazendo-te homicida. E se ficas vencedor, e fazes perecer a teu contendor com o desígnio de triunfar dele e de vingar-te, vives homicida. Pois quer morras, quer vivas, quer sejas vitorioso ou vencido, de nenhum modo te é vantajoso ser homicida. Desgraçada vitória a que te faz sucumbir ao vício, ao mesmo tempo que triunfar de um homem. Em vão te glorias de ter triunfado de teu inimigo, quando a cólera e a soberba te reduzem à escravidão.

A milícia secular

Qual é o fim e o fruto, não digo desta milícia (o Templo), mas da milícia secular, quando aquele que mata peca mortalmente, e aquele que é morto perece por uma eternidade? Servindo-me das palavras do Apóstolo: "Aquele que semeia o grão deve fazê-lo na esperança de gozar de seu fruto".

Mas dizei-me, valentes do século: que ilusão espantosa é esta e que insuportável furor é este, de combater com tantas fadigas e gastos, sem outro salário que o da morte e o do crime?

Cobris os cavalos de belos ornamentos de seda, forrais as couraças com ricas fazendas, pintais as lanças, os escudos e as selas, levais as rédeas dos cavalos e as esporas cobertas de ouro, de prata e de pedrarias, e com toda essa pompa brilhante vos precipitais na morte, com furor vergonhoso e com uma estupidez que não tem menor discernimento.

São equipagens de guerra ou são o adorno de mulheres? Pensais que a espada do inimigo terá respeito ao ouro que levais? Que preservará vossa pedraria, e que não será capaz de transpassar essas belas fazendas de seda?

Enfim eu julgo, e sem dúvida vós o experimentais com bastante freqüência, que há três coisas que são inteiramente necessárias: é mister que o prudente e valoroso cavaleiro tenha muito domínio sobre si, para enganar os golpes do adversário; que tenha iniciativa e habilidade, para mover-se de qualquer lado; que esteja sempre preparado para carregar sobre o inimigo.

Mas vós fazeis tudo ao contrário: levais, como as damas, grandes cabeleiras, que vos atrapalham para atingir o que tendes em volta; embaraçais as pernas com vossas longas vestimentas; envolveis vossas fracas e delicadas mãos com grandes véus.

Mas acima de tudo isso, o que deve assustar mais a consciência dos combatentes é que ordinariamente se empreende uma guerra muito perigosa por motivos muito ligeiros e de nenhuma importância.

Efetivamente, o que suscita os combates e as querelas entre vós não é, o mais das vezes, outra coisa senão um movimento de cólera pouco razoável, um certo apetite de vanglória ou o avaro desejo de possuir um pedaço de terra. Com semelhantes causas, não há nenhuma segurança em matar um homem ou em ser morto.


A milícia do Templo

Mas o mesmo não se dá com os Cavaleiros de Jesus Cristo, pois combatem somente pelos interesses de seu Senhor, sem temor de incorrer em algum pecado pela morte de seus inimigos e sem perigo nenhum pela sua própria, porque a morte que se dá ou recebe por amor de Jesus Cristo, muito longe de ser criminosa, é digna de muita glória.

Por um lado se adquire em ganho para Nosso Senhor, por outro é Jesus Cristo mesmo que o adquire; porque Ele recebe com gosto a morte de seu inimigo em seu desagravo, e se entrega com mais gosto ainda como consolo de seu soldado fiel.

Assim, o soldado de Jesus Cristo mata com segurança o seu inimigo e morre com maior segurança. Se morre, faz o bem para consigo; se mata, o faz para Jesus Cristo; porque não é em vão que ele leva ao lado a espada, pois é ministro de Deus pata tirar vingança sobre os maus e defender pela virtude os bons.

Certamente, quando se mata um malfeitor, não se passa por homicida. Antes, se me é permitido falar assim, por malicida. Passa por ser o justo vingador de Jesus Cristo na pessoa dos pecadores, e por ser o legítimo defensor dos cristãos. E quando ele perde a vida, é antes uma vantagem do que uma perda. Pois a morte que dá a seu inimigo é um ganho para Nosso Senhor, e a que recebe é sua ventura verdadeira.

Um cristão se glorifica na morte de um pagão, porque Jesus Cristo é glorificado nela; e a liberalidade do Rei dos Reis se torna manifesta na morte de um soldado cristão, porque ele é levado da terra para o prêmio.

À vista do mau, o justo se regozijará vendo a vingança executada nele. Do bom, dirão os homens: "Ficará o justo sem recompensa? Não há Deus que é seu juiz sobre a terra?" É certo que não se deveria exterminar os pagãos se houvesse algum outro meio de punir e evitar os maus tratos e opressões violentas que eles exercem contra os cristãos. Mas é muito mais justo combatê-los agora do que sofrer sempre o jugo dos pecadores sobre os justos, assim os bons não cometerão iniqüidades com os pecadores.

Com efeito, se de nenhum modo fosse permitido a um cristão fazer guerra, por que teria o precursor do Salvador declarado no Evangelho que os soldados devem estar contentes com seu pagamento, e não proibiu toda sorte de guerra?

Se, como é certo, este é um emprego lícito para todos aqueles que Deus destinou a ele, e não estão empenhados em outra profissão mais perfeita, quem — vos pergunto — o pode servir com mais vantagens do que nossos valorosos cavaleiros, que pela força de seu braço e de sua coragem conservam generosamente a cidade de Sion como o baluarte mais forte de toda a Cristandade, a fim de que, expulsos dele os inimigos da lei de Deus, possam as nações fiéis, que guardam a verdade, entrar ali com toda segurança?

Dispersai, pois, e dissipai com firmeza os infiéis que buscam a guerra, e sejam exterminados aqueles que nos conturbam continuamente; lançai fora da cidade do Salvador todos os ímpios que cometem a iniqüidade, que desejam roubar os inestimáveis tesouros do povo cristão dos quais a cidade de Jerusalém é o sagrado depósito, os que desejam profanar as coisas santas e possuir o santuário de Deus, como se fosse herança sua. Sejam vibradas as duas espadas dos fiéis contra as cervizes dos inimigos, a fim de destruir toda cultura que queira elevar-se contra a ciência de Deus, que é a fé dos cristãos, para que os gentios não digam um dia: onde está o Deus destas nações?

Então, expulsos os inimigos de sua casa, Nosso Senhor mesmo voltará à sua herança, da qual predisse em sua cólera: "Vede que vossa casa ficará desamparada como um deserto"; e à qual se refere, pela boca de seu profeta, nestas palavras: "Desejei minha casa e abandonei minha herança". Será cumprida esta profecia de Jeremias: "O Senhor resgatou seu povo e o libertou; e eles virão e se regozijarão sobre a montanha de Sion, e gozarão com prazer dos bens do Senhor".

Alegra-te, ó Jerusalém, e reconhece o tempo de tua visita. Regozijai-vos e entoai cânticos de gratidão, desertos de Jerusalém, porque Deus consolou seu povo, livrou Jerusalém e mostrou a força de seu braço santo à vista de todos os gentios.

A vida dos cavaleiros templários

É mister agora que, para exemplo ou confusão de nossos soldados, digamos umas palavras da vida e dos costumes dos cavaleiros de Jesus Cristo, e de que maneira se portam na guerra e em sua vida particular, a fim de fazer conhecer melhor a diferença que há entre a milícia de Deus e a do século.

Primeiramente, quer na guerra, quer na paz, guarda-se perfeitamente a disciplina e a obediência exata, porque, segundo o testemunho da Escritura, "o menino que vive sem disciplina perecerá". E também: "é um crime de magia resistir, e um pecado de idolatria não querer obedecer".

Vai-se e vem ao primeiro sinal daquele que manda, veste o que se dá e não ousa buscar em outra parte nem a vestimenta, contentando-se em satisfazer apenas as necessidades. Todos vivem em comum, em uma sociedade agradável e modesta; sem mulheres e sem filhos, a fim de que nada falte à perfeição evangélica; moram todos juntos numa mesma casa, sem propriedade alguma particular, tendo um cuidado muito grande em conservar a unidade de espírito no laço da paz.

Dir-se-ia que toda essa multidão de pessoas não tem senão um coração e uma só alma. Cada um procura com cuidado não seguir sua própria vontade, mas sim obedecer pontualmente à ordem do superior.

Não estão jamais ociosos nem correm daqui para lá, desejando satisfazer sua curiosidade. Mas quando não estão em marcha, o que sucede raras vezes, estão sempre ocupados, para não comer ociosamente seu pão, em refazer o que estragou-se de suas armas e de seus hábitos, em reparar o que está demasiadamente velho ou em colocar em ordem o que está fora do lugar. Enfim, em trabalhar em tudo aquilo que a vontade do Grão-Mestre ou a necessidade comum prescreve.

Entre eles não há acepção de pessoas. Tem-se consideração pela generosidade, e não pela maior nobreza. Apressam-se em honrar-se mutuamente e em carregar as cruzes do próximo, a fim de cumprir por este meio a lei de Jesus Cristo. Uma palavra insolente, uma ação inútil, um risco imoderado, uma leve queixa ou a menor murmuração não ficam jamais sem castigo neste lugar. Desprezam e têm horror aos cômicos e aos mágicos, aos contos de fantasias, às canções burlescas e a toda sorte de espetáculos e de comédias, como vaidades e loucuras falsas. Levam seus cabelos curtos, sabendo que, segundo o Apóstolo, é vergonhoso a um homem cuidar de sua cabeleira.

Quando estão prestes a entrar em guerra, fortificam-se por dentro com a fé e por fora com as armas de aço não douradas, para, assim armados sem ornamentos preciosos, infundir terror aos inimigos, em vez de excitar sua avareza. Cuidam muito de ter bons cavalos, fortes e ligeiros, e não reparam que sejam de pelagem bonita ou estejam ricamente ajaezados. Pensam mais em combater do que em apresentar-se com fausto e pompa.

Aspirando à vitória e não à vanglória, procuram fazer-se mais respeitar do que admirar por seus inimigos. Jamais marcham em confusão e com impetuosidade, nem se precipitam às pressas nos perigos, pelo contrário estão sempre em seus postos com uma precaução e prudência inimagináveis.

Entram em batalha na mais bela ordem, segundo o que está escrito do povo de Deus: "Os verdadeiros israelitas marcham para a batalha com o espírito pacífico. Mas chegados ao embate, põem de lado a mansidão costumeira, como se dissessem: ‘Não é certo que eu aborreço a todos que vos aborrecem, Senhor, e que me consumo de cólera contra vossos inimigos?’"

Lançam-se como leões sobre seus adversários, olhando as tropas inimigas como rebanhos de ovelhas.

Mesmo que muito poucos em número, não temem de maneira alguma a multidão de seus soldados nem sua crueldade bárbara. Estão igualmente ensinados a não confiarem em suas próprias forças, mas a esperam do poder do Deus dos Exércitos, ao qual é fácil, segundo a sentença do generoso Macabeu, entregar as numerosas fileiras inimigas nas mãos de um punhado de pessoas, não fazendo, para Deus do céu, nenhuma diferença em livrar seu povo com muita ou pouca gente.

Porque a vitória da guerra não vem do grande número de soldados, mas de um favor do céu. Isto eles têm experimentado freqüentemente, até ter visto muitas vezes um milhar de homens posto em fuga por um só, e dez mil por dois somente.

Enfim, vê-se todavia no dia de hoje, por uma graça singular e admirável, que eles são mais mansos que cordeiros e mais ferozes que leões. De tal forma que, de boa fé, fico indeciso em dizer se deve-se qualificá-los com o nome de monges ou de cavaleiros, e me pergunto se não seria melhor chamá-los com um e outro nome, posto que têm a mansidão dos monges e a força dos soldados.


O que se pode dizer aqui, senão que é Deus mesmo o autor dessas maravilhas que vemos com pasmo diante de nossos olhos?

É Deus, volto a dizer, quem escolheu para si tais servos e os juntou de todas as extremidades da terra, dentre os mais valentes de Israel, para guardar animosamente o leito do verdadeiro Salomão, isto é, o Santo Sepulcro, com a força de suas armas e com sua destreza nos combates.

Fontes:

LATIM: nas OBRAS COMPLETAS: S. BERNARDI ABBATIS DE LAUDE NOVAE MILITIAE AD MILITES TEMPLI LIBER, Opera Omnia 541 ADMONITIO IN OPUSCULUM VI.

FRANCÊS: De Laude novae militiae, Par Bernard De Clairvaux.
Em PDF: CLICAR AQUI

PORTUGUÊS: Elogio à Nova Milícia - São Bernardo





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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Traços da mentalidade e da espiritualidade dos cavaleiros


Baudouin de Condé crê que o Cavaleiro deve continuar ativo em sua armadura durante todo o tempo que suas forças o permitam.

Até o seio da morte, até o último suspiro, o pensamento e a recordação dos feitos e das batalhas persegue a grande maioria desses homens de armas.

Um deles morre murmurando: - “No céu vou refazer a guerra de espada e de lança”.

Outro moribundo, sem desanimar, pede aos que o estão velando que o ajudem a levantar-se e armar-se para acertar uma quintana.

Certo Cavaleiro dizia que era preciso haver mouros no paraíso que lhe dessem ocasião de novos combates.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A partida, a volta e a glória do Cruzado

Partida para a guerra, anônimo francês
O senhor feudal é dono de um castelo ― que nossa imaginação põe perto do Reno, do Danúbio, do Sena ou de um lago da Suíça. O castelo tem sua torre altiva, muralhas, e aos pés duas e três aldeias com suas capelinhas e seus sininhos tocando. Mais adiante a plantação, depois a criação.

Este senhor feudal, pai de numerosa família, chefe de um povinho, rei em miniatura, sai a pé todo armado. Atrás dele a senhora que chora, mas que anda também com passo firme, as crianças, alguns familiares, o capelão. Eles passam a ponte: é a partida do guerreiro.

A partir daquele momento, ele deixa de ser senhor para ser vassalo. Ele obedece ordens, não manda mais. A partir daquele momento ele não é um homem que faz a ordem, ele é um homem que derruba as desordens, é um guerreiro.

Este guerreiro vai arriscar a sua vida pelo Santo Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo. É algo de único no mundo.

Ele se despede da mulher, dos filhos, dos parentes, beija a mão do sacerdote que ainda lhe dá uma bênção. Depois monta a cavalo, não olha mais para trás. O vento bate em direção oposta a ele. No alto do elmo o penacho se levanta, ele dá uma esporada e o cavalo some na poeira e na bruma.

Aquela gente se verá ainda algum dia? Ele não morrerá na Cruzada? E aquela senhora não fica abandonada? Não pode acontecer que os vizinhos cobiçosos avancem no castelo? Que meios ela tem de se defender?

Ela, pequena rainha, como é que ela faz para tocar para frente aquele feudo, mini-reino buliçoso onde todo o mundo quer coisas e pede melhorias?

Ela volta devagarzinho com os filhos para a capela. Ali reza aos pés do Santíssimo, de um crucifixo ou de uma imagem de Nossa Senhora. Reza, volta para casa e começa a vida de uma espécie de viuvez provisória.

O cruzado pensa nisso, mas ele está pensando também no sarraceno terrível que pode cegá-lo, arrancar-lhe o maxilar, perfurar-lhe o coração. Mas também pensa com entusiasmo no dia em que ele chegar a Jerusalém.

Pergaminho do Poema do El CidPassam-se cinco anos, sete, oito. Ele manda alguma carta para a mulher quando encontra algum ferido que já não pode participar da cruzada e que está voltando e mora nos arredores da terra dele.

Aquela gente sabia ler pouco e escrever mal. Ele manda algumas palavras que significam: “Estou vivo, estou lutando, estou com o coração cheio. Cristo, por quem eu estou talvez morrendo, vele por vocês”.

Cinco, sete, oito anos depois, um belo dia o cruzado volta. Envelheceu, ficou com a pele toda crestada dos sóis do Oriente, perdeu uns dedos na Cruzada e acha que perdeu pouco quando há gente que perdeu mais. Encontra-se com a família: alegria geral!

Mas, a bem dizer, começam a conhecer-se de novo, porque cada um fez da outra parte um mito durante a ausência. Na volta encontram uma coisa diferente do mito e transformada pelo tempo.

Então é uma nova adaptação, uma nova vida. Mas no cavaleiro há uma coisa que ficou: ele verteu seu sangue por Aquele que é o Redentor dele. Ele quebrou o poder maometano. Os dedos que ele perdeu pesaram na balança de Deus contra os maometanos.

Ele volta com a consciência limpa e com o desejo de refazer tudo de novo se as condições permitirem.

Túmulo de Roberto de Normandia, catedral de GloucesterUm homem assim envelhece e morre, e pode-se escrever em cima do caixão dele: "O cavaleiro tal, cruzado em tanto". Está escrito cruzado, poder-se-ia escrever glória ou Céu.

Não está ligado à palavra "cruzado" uma glória, um esplendor, uma sacralidade que na ordem temporal das coisas não tem superior? É evidente.

Vamos dizer, por exemplo, Lord Nelson, o grande almirante inglês foi tão admirado que quando ele morreu todas as marinhas do mundo puseram luto. É uma grande coisa. O Príncipe Eugênio, marechal dos exércitos da Imperatriz Maria Teresa da Áustria, era tão venerado pelos guerreiros. que quando alguém pronunciava o nome dele, todos em todos os países do mundo faziam continência. É glória.

O que é isso em comparação com o cruzado que libertou o Santo Sepulcro de Cristo das mãos dos maometanos?

Lord Nelson, Príncipe Eugênio, o que for, tudo passou... O Cruzado ficou.

Plinio Correa de Oliveira, 25/9/94. Texto sem revisão do autor.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Os meninos durante o cerco de Jerusalém


Os que lá estiveram contam que, enquanto a cidade esteve sitiada, depois dos freqüentes embates, sitiantes e sitiados misturavam-se uns com outros.

Acontecia muitas vezes que, tendo-se retirado os homens, era freqüente ver alguns batalhões de meninos avançando, uns desde a cidade e outros saindo do nosso meio e do acampamento de seus pais, e atacavam-se e combatiam imitando-os, tornando-se igualmente dignos de serem contemplados.

Porque, como dissemos no inicio desta história, quando se estendeu por todos os países do Ocidente a noticia da expedição a Jerusalém, os pais empreenderam a viagem levando consigo seus filhos, ainda meninos.

E foi assim que, mesmo quando os pais de alguns deles morreram, os filhos prosseguiram o caminho, habituaram-se aos trabalhos e, no tocante a misérias e privações de toda espécie, souberam agüentá-las e não se mostraram inferiores aos homens feitos.

Aqueles meninos formaram um batalhão e elegeram seus príncipes entre eles: um tomou o nome de Hugo, o Grande, outro o de Bohemundo, outro o de Conde do Flandres, outro o de Conde de Normandia, representando de tal modo a todos esses ilustres personagens e mais outros.

Sempre que algum desses jovens príncipes via algum dos seus carente de viveres ou de outras coisas, ia a procura dos Príncipes mencionados para lhes pedir provisões, e eles lhas davam em abundância, para sustentá-los dignamente em sua debilidade.

Santo AdriãoA jovem e singular milícia costumava aproximar-se para hostilizar os meninos da cidade, cada um deles armado com longas canas no lugar de lanças, cada um com seu escudo de vime entrelaçado, cada um, de acordo com suas forças, levando pequenos arcos e flechas.

Os meninos, bem como os da cidade, enquanto seus pais contemplavam-nos de ambas as partes, avançavam e encontravam-se no meio da planície; os habitantes da cidade saiam até às muralhas para ver, e os nossos deixavam suas tendas para assistir o combate.

Via-se, então, provocarem-se com brados e se darem golpes às vezes sangrentos, mas sem que nenhum deles corresse perigo de morte. Muitas vezes esses prelúdios animavam a coragem dos homens maduros e provocavam novos combates.

Ao verem o ardor impotente que animava aqueles membros delicados e esses fracos braços que agitavam alegremente armas de toda espécie, depois de se terem infligida de uma parte e outra feridas dadas e recebidas, amiúde os espectadores de mais idade adiantavam-se para tirar os meninos do centro de campo e engajarem entre si um novo combate.

(Fonte: “Crônicas de Gilberto de Noguent”, apud Régine Pernoud, “Las Cruzadas”, Los Libros del Mirasol, Compañía General Fabril Editora, S.A., Buenos Aires, 1964, pp. 80 s.)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Cavalaria Medieval: um oitavo sacramento...

Cavaleiro, Bruges, Belgica
Na estrutura feudal floresceu a Cavalaria, como a flor de abril nos ramos da macieira.

A cavalaria constituiu uma dignidade de ordem moral, que conferia àquele que com ela fosse honrado, uma investidura de caráter praticamente religioso. Sua origem remonta ao século XII, século proclamado por Quicherat como o maior de nossa História.

Léon Gautier em importante obra consagrada ao assunto chegou a qualificar a Cavalaria de “Oitavo Sacramento”.

Um padre que casasse e fosse preso vestindo trajes civis, deveria ser conduzido a um tribunal eclesiástico. O mesmo se passava com o Cavaleiro. Por outro lado, ele usufruía de vários privilégios consagrados ao clero. Clérigos e cavaleiros eram homenageados da mesma forma.

Os Cavaleiros eram considerados por todos como um grupo de elite.

Se uma jovem dama se tornasse herdeira de um importante domínio; ou se uma mulher ficasse viúva e com terras para administrar, recorria a um cavaleiro para que protegesse seus bens, tomasse a guarda de seu castelo e o comando dos homens de armas. O Cavaleiro recebia com isso o título de Visconde ou o de Castelão.

São três as ordens necessárias para o bom funcionamento de um Estado:

– o Sacerdote, para cuidar do culto e das orações;

– o trabalhador, para cuidar do campo;

– e o Cavaleiro, para proteger a ambos e sustentar a Justiça.

Nas comparações que fazem entre Clero e Cavalaria, os autores mais antigos sustentam que ao Cavaleiro deve ser imposta a obrigação do celibato.

Quem podia ser armado Cavaleiro?

A primeira condição exigida era, naturalmente, a Fé Católica. A idéia de se fazer armar Cavaleiro a um sarraceno fazia explodir de rir.

Cavaleiros alemães, anônimo ano 1000Em seguida era preciso que ele montasse a cavalo, soubesse manejar a lança, a acha e a espada; ele devia mover-se livremente sob uma armadura de aço.

A Cavalaria, diz o autor de Jouvencel, é o que são os braços para o corpo, isto é, dispostos para defender sempre que necessário, a cabeça (a Igreja) e as pernas (o povo).

A Cavalaria é então um como que sacerdócio, mas de caráter militar.

Não eram admitidos na Cavalaria aqueles que estivessem desonrados por maus costumes.

Geralmente eram escolhidas festas litúrgicas – Natal, Páscoa, Ascensão, Pentecostes, São João – para se armar um Cavaleiro. De preferência se escolhia uma boa época do ano, pois a entrega das armas pedia ar livre e um dia ensolarado, devido ao júbilo com que tudo deveria ser acompanhado.

Muitos Cavaleiros acreditavam que não podiam ser dignamente chamados por este nome sem terem antes entrado em terras sarracenas para um combate. E só após uma batalha é que recebiam com alegria a investidura das armas.

Cavaleiro, desenhoDado o caráter de sacerdócio militar da Cavalaria, muitos jovens iam até Roma pôr-se aos pés do Soberano Pontífice, a fim de que o Vigário de Cristo os cingisse com a espada. Na Inglaterra os abades mostram-se ativos armadores.

Entregar uma espada a um jovem chamado a combater era prover à primeira e mais imperiosa de suas necessidades. Os nobres não se batiam a não ser a cavalo, donde o ato de colocar os esporões nas botas.

Com o correr do tempo a investidura do Cavaleiro foi se tornando religiosa.

O padrinho do noviço não é mais um barão, chefe de guerra, mas uma personalidade religiosa: o Bispo substitui o barão. É ele que cinge a espada no lado esquerdo do Cavaleiro; é ele quem diz: “Sê bravo!” ou “Sê Cavaleiro!”, locuções sinônimas. É ele quem dá a palmada na nuca inclinada.

Mas o Bispo não bate; ele “toca”. A entrega de armas tornou-se religiosa, melhor dizendo, “litúrgica”, e assim deve permanecer.

(Fonte: Funck Brentano , “Féodalité et Chevalerie”)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Milagre de Nossa Senhora em Covadonga (Astúrias) impediu a conquista de Espanha pelos mouros

Nossa Senhora de Covadonga

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Sob a proteção de Nossa Senhora de Covadonga se iniciou a Reconquista da Espanha, com o milagre que Ela realizou socorrendo o Rei Don Pelayo e os pouquíssimos cavaleiros que estavam com ele nas montanhas das Astúrias, no monte Auseba.

Deu-lhes uma grandiosa vitória sobre os maometanos, justamente quando pareciam perdidos, premiando assim seu denodo, seu heroísmo e sua fé.

Em 718 estava D. Pelayo rodeado por duzentos mil homens do exército de Alkamah, lugar-tenente do Wali Helor.

O Bispo Dom Opas, que já havia pactuado, se adiantou para tentar convencê-lo da inutilidade de resistir e da conveniência de seguir seu exemplo.

Gruta de batalha de Covadonga
Invocando o auxílio de Deus e da Virgem, que tinha como seguros, D. Pelayo rechaçou indignado a proposta traidora, dispondo-se a batalhar até o fim contra os inimigos da Fé.

Vendo Alkamah o fracasso da missão de submeter o Rei D. Pelayo, iniciou o ataque contra esse último baluarte da Cristandade, mas encontrou a heroica oposição dos católicos.

Pouco depois Deus mostrou sua intervenção com um portentoso milagre, pela intercessão de Nossa Senhora de Covadonga: um grande tremor de terra moveu o campo de batalha, e a metade da montanha caiu sobre o exército muçulmano, fazendo enorme destruição.

Don Pelayo, Cangas de OnísO Rei Don Pelayo, com os seus, perseguiu o que restava do exército dos infiéis, completando o extermínio, no qual morreu também Alkamah e desapareceu D. Opas.

Em meio ao entusiasmo da vitória, Don Pelayo foi proclamado Rei das Astúrias, recebendo a coroa das mãos do Bispo de Oviedo, dando início à monarquia espanhola.

Depois de uma vida guerreira e de organização de seus povos, foi enterrado na cova santa da Virgem de Covadonga.

No local, uma placa proclama: "Sob o nome da Mãe de Deus, dentre as rochas e no alto dos montes, surgiu a Espanha".




(Fonte: Conde de Fabraguer, "Imágenes de la Virgen Aparecidas en España" - Juan José Martínez Editor, Madrid, 1861, pp. 203-233)



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