Outras formas de visualizar o blog:

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Godofredo de Bouillon, fundador do Reino Latino de Jerusalém

Godofredo de Bouillon. Fundo: Puerta de Damasco em Jerusalém.
Godofredo de Bouillon. Fundo: Puerta de Damasco em Jerusalém.

Quando Godofredo voltou a Jerusalém, soube que Balduino, conde de Edessa e Boemundo, príncipe de Antioquia, estavam em viagem para visitar os santos lugares.

Lembremo-nos de que esses dois chefes da primeira cruzada não tinham seguido seus irmãos de armas para a conquista da cidade santa.

Eles vinham a Jerusalém acompanhados de um grande número de cavaleiros e de soldados da cruz, que haviam ficado como eles para a defesa do país conquistado e se mostravam impacientes por terminar a peregrinação.

A esses ilustres guerreiros uniu-se uma multidão de cristãos, vindos da Itália e de várias regiões do Ocidente. Essa piedosa caravana que contava vinte e cinco mil peregrinos, muito teve que sofrer nas costas da Fenícia.

Mas quando viram Jerusalém, diz Foulcher de Chartres, que acompanhava Balduino, conde de Edessa, todas as misérias que tinham sofrido foram esquecidas.

A história contemporânea diz que Godofredo “muito contente por receber seu irmão Balduino, homenageou magnificamente os príncipes durante lodo o inverno”.

Daimbert, arcebispo de Pisa, tinha chegado com Balduino, conde de Edessa e Boemundo, príncipe de Antioquia; à força de presentes e de promessas, fez-se nomear patriarca de Jerusalém, no lugar de Arnould de Rohes.

Esse prelado, educado à escola de Gregório VII, sustentava com ardor as pretensões da Santa Sé.

Sua ambição não tardou a lançar a perturbação entre os cristãos, nos mesmos lugares onde Jesus Cristo tinha dito que seu reino não é deste mundo.

Aquele, que se proclamava seu vigário, quis reinar com Godofredo e pediu a soberania de uma parte de Jaffa e do bairro de Jerusalém chamado do Santo Sepulcro.

Depois de alguns debates, o piedoso Godofredo concedeu o que lhe pediam, em nome de Deus, e, se acreditarmos no testemunho de Guilherme de Tiro, o novo rei declarou, no dia da Páscoa, diante de todo o povo reunido no Santo Sepulcro, que a torre de Davi e a cidade de Jerusalém pertenceriam, em toda soberania à Igreja, se ele morresse sem posteridade.

Godofredo de Bouillon, estátua equestre em Bruxelas. Fundo: deserto.
Godofredo de Bouillon, estátua equestre em Bruxelas. Fundo: deserto.
O novo rei contava entre seus súditos, armênios, gregos, judeus, árabes, renegados de todas as religiões, aventureiros de todos os países.

O Estado confiado aos seus cuidados era como um lugar de passagem e tinha como guardas e defensores somente viajantes e estrangeiros.

Era o lugar de reunião de grandes pecadores, que para lá tinham ido, a fim de aplacar a cólera de Deus e o asilo dos criminosos que se esquivavam da justiça dos homens.

Uns e outros eram igualmente perigosos, quando as circunstâncias lhes despertavam as paixões e quando o temor ou o arrependimento davam lugar a novas tentações.

Godofredo, segundo o espírito dos costumes feudais e as leis da guerra, tinha distribuído as terras conquistadas aos companheiros de suas vitórias.

Os novos senhores de Jaffa, de Tiberíades, de Ramla, de Naplusa, mal reconheciam a autoridade real.

O clero, sustentado pelo exemplo do patriarca de Jerusalém, falava como senhor e os bispos exerciam, como os barões, um poder temporal.

Uns atribuíam a conquista do reino ao seu valor, outros, às suas orações; cada qual reclamava o prêmio de sua piedade ou de seus trabalhos; a maior parte pretendia o domínio; todos, a independência.

(Autor: Joseph-François Michaud, “História das Cruzadas”, vol. II, Editora das Américas, São Paulo, 1956. Tradução brasileira do Pe. Vicente Pedroso, páginas 90 ss).




GLÓRIA CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Fama e virtudes de Godofredo de Bouillon

Godofredo de Bouillon recebe os emires em sua tenda. Gustave Doré (1832 — 1883)
Godofredo de Bouillon recebe os emires em sua tenda.
Gustave Doré (1832 — 1883)

Durante o mesmo cerco [de Arsur], vários emires vieram das montanhas de Naplusa e da Samaria, cumprimentar Godofredo e oferecer-lhe presentes, como figos e uvas, secos ao sol.

O rei de Jerusalém estava sentado por terra, sobre um saco de palha, sem aparato, nem guardas.

Os emires demonstraram sua surpresa e perguntaram como um tão grande príncipe, cujas armas tinham abalado o Oriente estava humildemente por terra, não tendo nem mesmo um travesseiro de seda, nem um tapete de damasco.

“A terra de onde temos nossa origem e que deve ser nossa última morada, depois da morte, respondeu Godofredo, nos não poderá servir de trono durante a vida?”

Esta resposta que parecia ter sido ditada pelo mesmo gênio dos orientais, não pôde deixar de impressionar vivamente os emires.

Cheios de admiração por tudo o que tinham visto e ouvido, deixaram Godofredo desejando sua amizade; em Samaria muito se admiraram de que ele mostrasse tanta simplicidade e sabedoria, entre os homens do Ocidente.

Ao mesmo tempo, narrava-se muitas maravilhas, sobre a força de Godofredo: haviam-no visto, com um só golpe de espada, cortar a cabeça de um dos maiores camelos.

Um emir poderoso, entre os árabes, quis julgar o fato, ele mesmo e veio pedir ao príncipe cristão, que renovasse na sua presença, o prodígio.

Godofredo assentiu ao pedido do emir, satisfez-lhe a curiosidade e com um só golpe decepou a cabeça de um camelo que lhe haviam trazido.

Como os árabes pareciam crer que havia algum encantamento na espada de Godofredo, ele tomou a espada do emir e a cabeça de um segundo camelo rolou na areia.

Godofredo de Bouillon corta a cabeça de um camelo de uma espadagada só.
Godofredo de Bouillon corta a cabeça de um camelo de uma espadagada só.
O emir então declarou solenemente que tudo o que lhe haviam dito do chefe dos cristãos era verdadeiro e que jamais homem algum fora mais digno de governar do que ele.

Eu vi, na Igreja do Santo Sepulcro, essa terrível espada, que, ora decepava cabeça de camelos, ora partia e fendia ao meio, gigantes sarracenos.

A história contemporânea nos faz conhecer que império exercia então sobre os povos vizinhos a única recordação das vitórias obtidas pelos soldados da cruz.

Os infiéis, tomados de espanto, diz Alberto d'Aix, nada melhor acharam para fazer do que mandar uma embaixada a Ascalon, de Cesareia e de Tolemaida, a Godofredo, para saudá-lo da parte daquelas cidades. A mensagem estava assim redigida:

“O EMIR DE ASCALON, O EMIR DE CESAREIA E O EMIR DE TOLEMAIDA AO DUQUE GODOFREDO E A TODOS OS OUTROS, SAUDAÇÃO.

Nós te suplicamos, mui glorioso duque e muito magnifico, que, por tua vontade, nossos cidadãos possam sair para seus negócios em paz e segurança. Nós te mandamos dez bons cavalos e três boas mulas, e todos os meses te ofereceremos a título de tributo, cinco mil bizantinos”.

Devemos notar aqui que nenhuma dessas cidades era mais bem fortificada e tinha mais meios de defesa que Jerusalém.

(Autor: Joseph-François Michaud, “História das Cruzadas”, vol. II, Editora das Américas, São Paulo, 1956. Tradução brasileira do Pe. Vicente Pedroso, páginas 90 ss).




GLÓRIA CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Estado da Terra Santa após a conquista de Jerusalém

Godofredo de Bouillon é escolhido para rei de Jerusalém. Federico de Madrazo y Kuntz (1815 – 1894), 1838.
Godofredo de Bouillon é escolhido para rei de Jerusalém.
Federico de Madrazo y Kuntz (1815 – 1894), 1838.
No estado em que se achava a Judéia, se seu território tivesse sido submetido inteiro às leis de Godofredo, o novo rei teria podido rivalizar em poder com a maior parte dos príncipes muçulmanos da Ásia.

Mas o reino nascente de Jerusalém era formado somente pela capital e por uma vintena de cidades ou aldeias da vizinhança.

Várias daquelas cidades estavam separadas umas das outras pelas praças que os infiéis ainda ocupavam. Uma fortaleza em poder dos cristãos estava perto de uma fortaleza onde se balouçavam os estandartes de Maomé.

Nos campos habitavam os turcos bem como árabes e egípcios, que se reuniam para fazer guerra aos súditos de Godofredo.

Estes eram ameaçados, até mesmo nas cidades, quase sempre mal defendidas e estavam sempre expostos a todas as violências da guerra.

As terras continuavam incultas, todas as comunicações estavam interrompidas.

No meio de tantos perigos, muitos latinos abandonavam as propriedades que a vitória lhes havia dado, e para que o país conquistado não ficasse sem habitantes, principalmente no momento do perigo, foram obrigados a fortalecer o amor da nova pátria com o interesse da propriedade.

Todos os que tinham morado um ano e um dia numa mesma casa e numa terra cultivada, deviam ser reconhecidos como seus legítimos possuidores; todos os direitos de posse ficavam aniquilados por uma ausência da mesma duração.

O primeiro cuidado de Godofredo foi reprimir as hostilidades dos muçulmanos e de aumentar a extensão do reino, cuja defesa lhe havia sido confiada.

Godofredo de Bouillon, estátua em Bouillon, Bélgica.
Godofredo de Bouillon, estátua em Bouillon, Bélgica.
Por sua ordem, Tancredo entrou na Galileia e apoderou-se de Tiberíades e de várias outras cidades vizinhas do Jordão.

Como prêmio do seu trabalho, obteve a posse do país que acabava de conquistar e que, em seguida foi erigido a principado.

Ao aproximar-se da primavera, Boemundo e Balduino deixaram a cidade santa; os peregrinos foram primeiro apanhar palmas nas planícies de Jericó; visitaram depois, o Jordão, detiveram-se alguns dias em Tiberíades, onde foram magnificamente recebidos por Tancredo.

A caravana dos príncipes voltou por Cesareia de Filipe, ou Panéias, por Balbec e Tortosa, a Laodiceia, então sob o domínio de Raimundo de Saint-Gilles.

Lá, os peregrinos da Itália, embarcaram nos navios de Gênova e de Pisa; Balduino tomou o caminho de Edessa e Boemundo o de Antioquia.

Godofredo ficou sozinho em Jerusalém; ele encontrava-se numa cidade em ruínas, num país devastado. O povo da cidade santa jazia em extrema pobreza.

Godofredo, mais pobre ainda que seus mesmos súditos, não tinha com que pagar o pequeno número de seus fiéis guerreiros.

Durante a guerra se havia vivido somente com os despojos do inimigo; na paz, só se vivia do temor que se havia inspirado durante a guerra.

(Autor: Joseph-François Michaud, “História das Cruzadas”, vol. II, Editora das Américas, São Paulo, 1956. Tradução brasileira do Pe. Vicente Pedroso, páginas 90 ss.)




GLÓRIA CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Florescimento da cultura, das artes e do Direito; correção dos costumes
Benefícios das Cruzadas – 3

Suavização das relações sociais. Der Burggraf von Regensburg, Codex Manesse
Suavização das relações sociais.
Der Burggraf von Regensburg, Codex Manesse



Continuação do post anterior


Antes da primeira cruzada, a ciência da legislação, que é a primeira e a mais importante de todas, tinha feito pequeno progresso.

Algumas cidades da Itália e as províncias próximas dos Pireneus, onde os godos tinham feito florescer as leis romanas, viam, sozinhos, renascer alguns vislumbres de suas civilizações.

Entre os decretos e as determinações que Gastão de Béarn tinha reunido, antes de partir para a cruzada, encontramos disposições que merecem ser conservadas pela história, porque nos apresentam os frágeis começos de uma legislação, que o tempo e felizes circunstâncias deviam aperfeiçoar.
“A paz, diz esse legislador, do século XI, será mantida em todos os tempos pelos clérigos, monges viajantes, senhoras e por seus sucessores.

“– Se alguém se refugiar junto de uma senhora, terá segurança, à sua pessoa, pagando a multa.

“– Que a paz esteja com o rústico; que seus bois e seus instrumentos de lavoura não possam ser arrebatados”.

Desenvolvimento simultâneo das artes
Desenvolvimento simultâneo das artes
Estas disposições benéficas eram inspiradas pelo espírito de cavalaria, que tinha feito progresso nas guerras contra os sarracenos na Espanha.

Elas eram sobretudo obra dos Concílios, que tinham determinado acabar com a guerra entre os particulares e os excessos da anarquia feudal.

As guerras santas de além-mar terminaram o que a cavalaria tinha começado e aperfeiçoaram a mesma cavalaria.

O concílio de Clermont e a cruzada que o seguiu, desenvolveram e consolidaram tudo o que os concílios precedentes, tudo o que os mais sensatos dos senhores e dos príncipes tinham feito pela humanidade.

Vários príncipes cruzados, como o Duque da Bretanha, Roberto, Conde de Flandres, marcaram seu regresso por sábias determinações. Algumas instituições salutares começaram a tomar o lugar dos abusos violentos da feudalidade.

Foi principalmente, na França que se notaram essas mudanças.

Muitos senhores tinham libertado seus servos, que os seguiam depois à santa expedição.

Giraud e Giraudet Ademar de Montheil, que tinha seguido seu irmão, Bispo de Puy, à guerra santa, para encorajar e recompensar alguns de seus vassalos de que estavam acompanhados, concederam-lhes diversos feudos por um ato passado no mesmo ano da tomada de Jerusalém.

Poder-se-iam citar vários atos semelhantes feitos durante a cruzada e nos primeiros anos que a seguiram.

A liberdade esperava no Ocidente o pequeno número de cruzados que voltava da guerra santa e que parecia não ter outro Senhor, que Jesus Cristo.

Freiras numa abadia.
Freiras numa abadia.
O Rei da França, embora tivesse estado por muito tempo sob as censuras da igreja e não se distinguisse por nenhuma qualidade pessoal, teve um reino mais feliz e mais tranquilo que seus predecessores.

Começou a sacudir o jugo dos grandes vassalos da coroa, vários dos quais estavam arruinados ou tinham perecido na guerra santa.

Muitas vezes repetimos que a cruzada pôs enormes riquezas nas mãos do clero; é um fato que não se poderia negar embora não seja igualmente verdade, para as guerras santas que se seguiram.

Mas não se poderia dizer que o clero era então a parte mais esclarecida da nação e que esse acréscimo de prosperidade estava na natureza das coisas?

Obras de caridade. Free Library of Philadelphia, Rare Book Dep.
Obras de caridade.
Free Library of Philadelphia, Rare Book Dep.
Depois da primeira cruzada podemos notar o que se vê em todos os povos que marcham para a civilização: o poder tendia a se centralizar nas mãos daquele que devia proteger a sociedade.

A glória foi a partilha daqueles que eram chamados a defender a pátria; a consideração e a riqueza dirigiram-se para a classe pela qual deviam chegar as luzes.

Várias cidades da Itália tinham chegado a certo grau de civilização antes da cruzada; mas essa civilização fundada sobre a imitação dos gregos e dos romanos, muito mais do que sobre seus costumes, o caráter e a religião dos povos, apresentava de algum modo acidentes passageiros, semelhantes às luzes repentinas que aparecem no céu e brilham por alguns momentos durante a noite.

Todas estas repúblicas esparsas e divididas entre si, como todas essas legislações, somente trazidas dos antigos, como todas essas liberdades precoces, que não tinham nascido do solo e não estavam de acordo com o espírito do tempo, prejudicaram a independência da Itália nas idades modernas.

Para que a civilização produza seus salutares efeitos e os benefícios sejam duradouros, é necessário que ela tenha suas raízes nos sentimentos e nas opiniões dominantes de uma nação e que nasça, por assim dizer, da mesma sociedade.

Seus progressos não poderiam ser improvisados, e tudo deve tender ao mesmo tempo para a mesma perfeição. As luzes, as leis, os costumes, o poder, tudo deve caminhar junto.

Foi o que aconteceu na França; também a França deveria ser um dia o modelo e o centro da civilização na Europa.

As guerras santas contribuíram muito para essa feliz revolução e pudemos percebê-lo desde a primeira cruzada.

(Autor: Joseph-François Michaud, “História das Cruzadas”, vol. II, Editora das Américas, São Paulo, 1956. Tradução brasileira do Pe. Vicente Pedroso, páginas 72-83).

FIM



GLÓRIA CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Salvação da civilização e aproximação do Ocidente e do Oriente
Benefícios das Cruzadas – 2

Sítio de Jerusalém. Biblioteca Nacional da França, Français 10, fol 412v.
Sítio de Jerusalém. Biblioteca Nacional da França, Français 10, fol 412v.

Continuação do post anterior


Nós dissemos várias vezes e tivemos ocasião de notar como frequentemente os homens que passam à posteridade por terem dominado seu século, são os que por primeiro, se deixaram dominar, eles mesmos, e dele se mostraram seus mais apaixonados intérpretes.

Um dos resultados dessa cruzada foi levar o espanto e o terror para o seio das nações muçulmanas e colocá-las, por muito tempo na impossibilidade de tentar algum empreendimento contra o Ocidente.

Graças às vitórias dos cruzados, o império grego recuou seus limites e Constantinopla, que era o caminho do Ocidente para os muçulmanos, ficou a salvo de seu ataque.

Nessa expedição longínqua, a Europa perdeu a fina flor de sua população; mas não foi como a Ásia, o teatro de uma guerra sangrenta e desastrosa, de uma guerra na qual nada era respeitado, onde as cidades e as províncias eram ora devastadas pelos vencedores ora pelos vencidos.

Enquanto os guerreiros vindos da Europa derramavam seu sangue nos países do Oriente, o Ocidente vivia em profunda paz.

Entre os povos cristãos, considerava-se então um crime, usar armas por outro motivo, que não por Jesus Cristo.

Essa opinião contribuiu muito para acabar com o banditismo e para fazer respeitar a trégua de Deus, que foi, na Idade Média, o germe ou o sinal de melhores instituições.

Fossem quais fossem os reveses da cruzada, eram eles menos deploráveis que as guerras civis e os flagelos da anarquia feudal que tinham por muito tempo devastado todas as regiões do Ocidente.

Essa primeira cruzada trouxe outras vantagens para a Europa. O Oriente, na guerra santa, de algum modo foi revelado ao Ocidente, que muito mal o conhecia.

O Mediterrâneo foi mais frequentado pelos navios europeus; a navegação fez algum progresso, e o comércio, principalmente o dos pisanos e genoveses, aumentou e se enriqueceu com a fundação do reino de Jerusalém.

Uma grande parte, é verdade, do ouro e da prata que se encontrava na Europa, tinha sido levada à Ásia, pelos cruzados; mas esses tesouros, escapados pelo temor ou pela ambição, estavam perdidos há muito tempo para a circulação; o ouro que não foi levado na cruzada, circulou mais livremente e a Europa, com uma menor quantidade de dinheiro, parecia na verdade, mais rica do que jamais o tinha sido.

Nós não vemos, embora se tenha dito, que, na primeira guerra santa a Europa tenha recebido grandes luzes do Oriente.

Durante o século XI a Ásia se tinha tornado teatro das mais espantosas revoluções. Nessa época, os sarracenos e principalmente os turcos não cultivavam as artes e as ciências.

Os cruzados com eles só tiveram relações belicosas, numa guerra terrível. Por outro lado, os francos desprezavam muito os gregos, entre os quais além disso, as ciências e as artes estavam em decadência, para de eles receber qualquer gênero de instrução.

No entanto, como os sucessos da cruzada tinham impressionado vivamente a imaginação dos povos, esse espetáculo grandioso e imponente, era bastante para dar uma espécie de impulso ao espírito humano no Oriente.

Falaremos alhures do caráter dessa cruzada; diremos somente, aqui, algumas palavras sobre o bem que ela pôde fazer à geração contemporânea.

Sabemos bastante de quantos males foi acompanhada. Os desastres mais nos ferem na história e não temos necessidade de recordá-los, mas o bem e seus progressos insensíveis são menos fáceis de perceber.

O primeiro resultado da cruzada para a França, foi a glória de nossos antepassados: quantos nomes ilustres nessa guerra!

As recordações gloriosas são um proveito real, pois fundem a existência das nações com a das famílias.

Não nos esquecemos do apelo que o Papa Urbano fez à nação belicosa dos francos e a história narra os prodígios com os quais estes responderam ao apelo do pontífice.

Um cronista nos diz que Deus, nessa ocasião, rejeitou os grandes monarcas da terra e não quis associar aos seus desígnios, senão a França, que estava pura na sua presença, pois nenhuma heresia até então tinha manchado o seu povo.

O Abade Guibert que tinha escolhido para título de sua história estas palavras: Gesta Dei per Francos (Feitos de Deus, pelos francos) expressou ao mesmo tempo o pensamento de seus contemporâneos como o da posteridade.

O que havia de mais interessante no tempo dos cruzados, é que o mundo julgava-se velho e perto do seu declínio: Guibert admirava-se de que as maravilhas, como as de que se era testemunha, tivessem acontecido num tempo de decrepitude.

A conquista de Jerusalém, por fim, sepultou os espíritos e os avisou de que o mundo não estava no fim, e que uma grande revolução ia começar para renovar o Oriente e o Ocidente.

“Nós sabemos, e não duvidamos, diz Guibert, que Deus não empreendeu estas coisas para a salvação de uma única cidade, mas Ele lançou em toda a parte, sementes, que produzirão muitos frutos”.

De todos os lados, já todos se entregavam com ardor ao estudo da gramática: o número sempre crescente de escolas tornava-lhes fácil o acesso, mesmo aos homens mais rudes.

O Abade de Nogent, começando sua história, declara que ele quer ornar o seu estilo e que seu intento é produzir um livro digno do tempo em que ele escreve e principalmente as maravilhas que ele vai celebrar.

Outros escritores tinham já começado a traçar a história dessa época memorável.

(Autor: Joseph-François Michaud, “História das Cruzadas”, vol. II, Editora das Américas, São Paulo, 1956. Tradução brasileira do Pe. Vicente Pedroso, páginas 72-83).

Continua no próximo post




GLÓRIA CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS